Após ficarmos por bastante tempo sem praticar exercícios e voltamos a
praticá-los, ou quando começamos uma nova rotina de exercícios, a
maioria de nós experimenta dor e rigidez nas articulações e nos músculos
exercitados. Atividades físicas incomuns ou atividades que não estamos
acostumados causam dor surda no músculo, mas o que seria esta dor e como
ela é gerada?
O que é a dor?
A dor é um mecanismo de
proteção ativado diante da possibilidade de ocorrência, ou após o
aparecimento, de lesões, e faz com que o indivíduo reaja para remover o
estímulo álgico (de dor). Os receptores da dor são terminações nervosas
livres suscetíveis a estímulos mecânicos, térmicos e químicos.
Uma
dor temporária (dor aguda) pode persistir por várias horas
imediatamente após um exercício extraordinário, enquanto uma dor
residual (dor crônica), ou dor muscular de início tardio (DMIT), pode
aparecer a seguir e durar por 2 a 4 dias.
Possíveis causas da dor
A
causa exata da dor muscular é de início desconhecida. No entanto,
segundo Foss (2000), foram levantadas três teorias diferentes:
-
Teoria da Ruptura (laceração) Tecidual. Essa teoria propõe que o dano
tecidual, como ruptura (lacerações minúsculas) de fibras musculares, ou
dano de seus componentes contráteis, pode explicar a mialgia (dor
muscular);
- Teoria do Espasmo. Nesta teoria, são sugeridos
três estágios de ação: (a) o exercício produz isquemia dentro dos
músculos ativos; (b) a isquemia resulta acúmulo de uma "substância
dolorosa" desconhecida que estimula as terminações nervosas do músculo
responsáveis pela percepção da dor; e (c) a dor desencadeia um espasmo
muscular reflexo que causa mais isquemia, e o ciclo todo se repete;
-
Teoria do Tecido Conjuntivo. Essa teoria sugere que os tecidos
conjuntivos, incluindo os tendões, são lesados durante a contração,
causando assim dor muscular. Convém lembrar que, durante as contrações
excêntricas, o músculo alonga-se sob tensão, distendendo assim os
elementos do tecido conjuntivo associados tanto aos tendões quanto às
fibras musculares;
Já McArdle (1998), cita as três teorias de Foss e complementa com mais três:
- Alterações na pressão osmótica que causam retenção de líquidos nos tecidos circundantes;
-
Alteração no mecanismo celular para a regulação do cálcio; ou seja, as
alterações no pH, nos níveis dos fosfatos de alta energia, no equilíbrio
iônico ou na temperatura observadas com um exercício incomum podem
produzir grandes alterações na estrutura e função do retículo
sarcoplasmático. Isso resulta em uma depressão no ritmo de captação de
Ca 2+ assim como em sua velocidade de liberação, produzindo um aumento
na concentração de Ca2+ livre quando penetra rapidamente no citosol das
fibras lesadas. Essa sobrecarga de Ca2+ intracelular pode contribuir
para o processo autolítico, que degrada as estruturas com e sem
potencial contrátil dentro do músculo lesado. Isso é responsável por uma
redução na capacidade de produzir força e por uma eventual dor
muscular;
- Uma combinação dos fatores acima citados.
A
causa exata da dor muscular é desconhecida, porém o grau de desconforto
depende em grande parte da intensidade e duração do esforço e do tipo
de exercício realizado. Não é a força muscular absoluta propriamente
dita, mas sim a magnitude da sobrecarga ativa imposta a uma fibra
muscular que desencadeia o dano muscular e a dor resultante (MCARDLE et
al., 1998).
Dor durante os exercícios (Dor Aguda)
Este
tipo de dor muscular aguda que, como o nome indica, ocorre durante e
imediatamente após o período de exercício, é considerado como associado à
falta de um fluxo sanguíneo suficiente (isquemia) para os músculos
ativos.
Segundo Foss (2000), com base em estudos, chegou-se às seguintes conclusões acerca da dor muscular aguda:
-
A dor muscular durante as contrações ocorre quando a tensão gerada é
suficientemente intensa para gerar oclusão do fluxo sanguíneo para os
músculos ativos (isquemia).
- Por causa da isquemia, os produtos
da atividade metabólica, tipo ácido lático e potássio, não podem ser
removidos e, dessa forma, acumulam-se até o ponto de estimularem os
receptores dolorosos localizados nos músculos.
- A dor persiste até
que seja reduzida a intensidade da contração ou que esta cesse
totalmente - restaurando o fluxo sanguíneo e fazendo com que os produtos
metabólicos de desgaste possam ser removidos.
A queimação
percebida durante a execução do exercício, principalmente com repetições
elevadas, é relacionada à falta de oxigênio e conseqüente queda de pH,
pois o acúmulo de íons de hidrogênio provoca acidose e estimula os
receptores de dor, os quais sinalizam para a interrupção do exercício
antes que ocorram lesões no tecido muscular. Mas este mecanismo é
transitório e não responde pela dor muscular tardia, pois a acidose é
rapidamente revertida por um sistema de tamponamento que trabalha para
manter o pH dentro dos limites fisiológicos.
A dor aguda,
embora possa importunar, não constitui um grande problema, pois é de
curta duração e desaparece quando se suspende o exercício. O problema
mais sério é a dor muscular de início tardio (DMIT), que é a dor e
mialgia que ocorrem num período de 24 a 48 horas após o término das
sessões de exercícios, podendo ser estender por ainda mais tempo.
Dor muscular tardia (Dor Crônica)
As
experiências destinadas a induzir a dor muscular tardia constataram que
o grau de DMIT (dor muscular de início tardio) está relacionado ao tipo
de contração muscular realizada. Em estudo utilizando contrações
isotônicas, concêntricas e excêntricas, e isométricas, constatou-se que a
dor muscular (mialgia) era mais pronunciada após as contrações
excêntricas e menos intensa após as contrações isotônicas. A dor
observada após as contrações isométricas era apenas ligeiramente maior
que após as contrações isotônicas, porém, ainda eram consideravelmente
menor àquela observada após as contrações excêntricas. Além disso, em
todos os casos, a dor era demorada, podendo atingir um período de 24 a
48 horas após o exercício.
O treinamento com pesos pode induzir
lesões nos tecidos musculares e conjuntivos. Diante uma lesão tecidual,
inicia-se o processo inflamatório caracterizado pela vasodilatação
local com aumento do fluxo sangüíneo na região, e aumento da
permeabilidade capilar com vazamento de líquido para o espaço
intersticial. Diversos fatores envolvidos no processo inflamatório, como
a bradicinina e prostaglandinas, estimulam os receptores de dor,
provocando o incômodo verificado em decorrência das lesões, o que ainda
poderá ser visto nos dias seguintes a uma sessão de treinamento intensa.
Deste modo vemos que a dor pode ser iniciada pela lesão, mas sua causa
são os mecanismos inflamatórios; desta forma não há relação temporal
entre a sensação de dor e os danos teciduais (CLARKSON et al., 1992).
Lembrando que a dor (aguda ou crônica) não é necessariamente o sinal de um trabalho eficiente.
Acido Lático causa dor muscular?
Muito
já se falou sobre as causas das dores musculares, e muitas pessoas
dizem que o vilão da história é a ácido láctico, mas já foi comprovado
cientificamente que o lactato não é o causador da dor muscular.
Segundo
Cailliet (1979), o acúmulo de metabolitos irritantes é ainda
considerado a causa da dor muscular, mas o metabolito especifico ainda
não foi identificado. A idéia previamente considerada, de que o ácido
láctico e a ácido pirúvico eram o fator, já foi refutada porque
exercícios isquêmicos em pacientes com ausência hereditária de
fosforilase muscular (síndrome de McArdle) desenvolvem dor grave, mais
do que a média, e o ácido lático não pode ser produzido nestes
indivíduos.
Segundo McArdle et al. (1998), alguns estudos
revelaram que a dor muscular era considerada maior quando o exercício
envolvia uma solicitação alta e repetida durante o alongamento ativo nas
contrações excêntricas que quando envolvia contrações concêntricas e
isométricas. Esse efeito não se correlacionava com o acúmulo de lactato,
pois a corrida de alta intensidade num plano horizontal (contrações
concêntricas) não produzia qualquer dor residual, apesar das elevações
significativas no lactato sanguíneo. A corrida num plano em declive
(contrações excêntricas), por outro lado, causava um grau de moderado a
intenso de dor muscular de inicio tardio, sem qualquer elevação de
lactato durante o exercício. A corrida em declive produzia aumentos
correspondentes nos níveis séricos das enzimas musculares específicas,
creatina-cinase (CK) e mioglobina (Mb), que são ambas marcadores usados
comumente para lesão muscular - (existe também uma maior mobilização de
leucócitos e neutrófilos, os quais estão associados com o processo de
inflamação aguda).
Dor na cabeça, no pescoço e fibras superiores do trapézio.
Muitos
indivíduos apresentam no dia-a-dia sintomas de dor na cabeça, no
pescoço e nas fibras superiores do trapézio. Sejam quais forem os
motivos destas dores, uma coisa é certa, a dor é muito incômoda, pois
trava o pescoço, deixa a região toda dolorida, gera dor de cabeça e nos
dá a impressão que estamos carregando alguém sentado nos nossos ombros.
Mas qual é o motivo desta dor?
Cefaléia resultante de espasmo
muscular: a tensão emocional causa muitas vezes o espasmo de vários
músculos da cabeça, incluindo, principalmente, os músculos fixados ao
couro cabeludo e os músculos do pescoço, com pontos de inserção occiptal
(base do crânio), e acredita-se que essa seja uma das causas mais
comuns de cefaléia. A dor do espasmo dos músculos da cabeça é
supostamente referida às áreas sobrejacentes da cabeça e produz o mesmo
tipo de cefaléia que as lesões intracranianas (GUYTON, 1993).
Em
1843 Froriep, rotulou os músculos que desenvolviam faixas ou cordas
dentro de sua estrutura como reumatismo. Ele acreditava que as
alterações palpáveis no músculo eram um depósito de tecido conjuntivo. A
maioria destes depósitos era dolorosa a pressão. Grauhan, logo depois,
descreveu os nódulos duros histologicamente como tecido conjuntivo
fibroso, circundando esparsas fibras musculares com infiltração de
linfócitos. Desde então, a literatura tem sido inundada com discussões
semelhantes, com rótulos como fibrose, miofibrosite intertisial,
reumatismo muscular, reumatismo não articular, síndrome miofascial,
mialgia e miofascite. Estas condições também foram classificadas como
agudas, subagudas e crônicas, com as agudas sendo classificadas como
aquelas tendo dor grave e sensibilidade à pressão, com espasmo reflexo,
edema, mobilidade prejudicada das articulações e uma temperatura
aumentada da área. Mas freqüentemente envolvida foram a área lombar,
coxa, os músculos esternocleidomastóideo, trapézio, e elevador da
escápula (músculos ligados à região cervical); A fase sub-aguda é a
condição na qual a dor e a rigidez diminuíram, mas ainda estão
presentes; a fase crônica é uma na qual o nódulo está presente, sem
qualquer sintomatologia (Cailleit, 1979).
Como podemos prevenir a dor
Para prevenir a dor muscular, propõe-se:
-
Alongar, pois o alongamento (estiramento) parece ajudar não apenas na
prevenção da dor, mas permite também o seu alívio, quando presente.
Entretanto, os exercícios de alongamento devem ser realizados sem
violência ou solavancos, pois isso poderia lesar ainda mais os tecidos
conjuntivos.
- Uma progressão gradual na intensidade do
exercício em geral ajuda a reduzir a possibilidade de dor muscular
excessiva. Essa progressão, em um programa de treinamento com pesos,
implica a utilização de pesos relativamente leves no início do programa,
aumentando gradativamente as cargas à medida que se conseguem aumentos
na força.
- Segundo Foss (2000), foi sugerido que a ingestão de
100 mg diários de vitamina C (cerca do dobro da dose) por um período de
30 dias prevenirá ou pelo menos reduzirá a dor muscular subseqüente.
Entretanto, a eficácia do consumo de vitamina C ainda não foi comprovada
por meio da experimentação científica.
Segundo McArdle et al.
(1998), ainda mais importante, uma única sessão de exercício exerce um
efeito profilático significativo sobre o surgimento da dor muscular no
exercício subseqüente, e esse efeito parece durar por até seis semanas.
Em caso de dor do dia seguinte, a principal medida a ser tomada durante o treinamento é reduzir a
carga
ou a intensidade do exercício nas próximas sessões de treino,
entretanto, se a dor for muito incômoda e limitante, a interrupção dos
treinos se faz necessária para permitir ao organismo uma recuperação
ótima da região lesionada. Caso a dor seja insuportável, o mais indicado
é consultar um médico para realizar exames a cerca da dor, e se
necessário indicar a utilização de um antiinflamatório, ou outro
medicamento.
Conclusão
Esses resultados confirmam a
conveniência de iniciar um programa de treinamento com um exercício
ligeiro (leve e com uma única sessão), para se proteger contra a dor
muscular que, quase certamente, acompanhará uma sessão inicial de
exercícios pesados que contenha um componente excêntrico. Entretanto,
até mesmo um exercício anterior de menor intensidade dos músculos
específicos não proporciona proteção completa contra a dor subseqüente
observada com um exercício mais intenso (MCARDLE, 1998).
O
estudo da dor que se origina no sistema neuro-músculo-esquelético não
está ainda esclarecido. Nenhuma teoria é universalmente aceita e nenhum
conceito confirma qualquer entidade patológica dolorosa específica. A
síndrome dolorosa músculo-esquelética, embora prevalente, não está mias
explicada em todas as suas ramificações do que a dor e a incapacidade de
qualquer outro sistema de órgãos.

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